CNH deixa de ser prioridade entre jovens

Vista antes como objeto de desejo entre a maioria dos brasileiros que estavam prestes a completar 18 anos, a primeira habilitação tem deixado de ser prioridade entre jovens do Grande ABC. Levantamento feito pelo Detran-SP (Departamento Estadual de Trânsito de São Paulo) mostra que a quantidade de CNHs (Carteiras Nacional de Habilitação) emitidas pelo órgão, para a população com faixa etária entre 22 a 30 anos, tem apresentado queda significativa desde 2013 (confira arte ao lado). Para especialistas, o índice evidencia novo cenário que deve tornar-se mais frequente nos próximos anos.

 

Se antes a CNH era vista por jovens como símbolo de independência, hoje o documento, muitas vezes, é sinônimo de dor de cabeça.

 

“São (muitas) as dificuldades encontradas para tirar a primeira habilitação. A principal é o alto custo, sendo que entre os valores das taxas de exame médico, psicológico, aulas no CFC (Centro de Formação de Condutores) e dos exames teórico e prático, o indivíduo ainda corre risco de pagar as taxas novamente em casos de reprovação, e a probabilidade disso ocorrer é maior do que a informada pelo Detran”, relata a estudante Dianne Prado, 26 anos, que atualmente opta por usar transporte público para se locomover diariamente.

 

Se para alguns o alto custo do processo é o fator determinante para deixar a habilitação de lado, para outros a possibilidade de economizar o dinheiro que seria investido na CNH para usar em outros projetos é a justificativa. “Logo que fiz 18 anos, meus pais insistiram para eu tirar a carteira de motorista. Na época eu até tinha um dinheiro guardado, mas como em breve eu iria mudar para Santo André, para estudar, optei por não tirar. Atualmente consigo me virar muito bem com o transporte público”, relata a estudante Bárbara Molina Mourad, 24, que ainda ressalta a possibilidade de aderir a outras formas de deslocamento. “Se houvesse uma ciclovia na cidade de Santo André, certamente esse seria meu meio de transporte.”

 

A possibilidade de se locomover no sistema viário por meio de outros modais, como forma de evitar o estresse causado pelos constantes congestionamentos, também foi fator fundamental para que o desenvolvedor Juliano Marques Nunes, 26, optasse por não tirar a CNH. “Além do preço alto de compra de um carro, você tem muitos gastos com impostos, seguro, estacionamento, combustível, que no fim acaba não valendo a pena. Eu sempre utilizei transporte coletivo e táxi. Hoje, como opção ao táxi, tenho usado bastante o Uber, mesmo em coisas do dia a dia, como voltar do trabalho”, relata.

 

Para a especialista em Mobilidade Urbana e professora da UFABC (Universidade Federal do ABC) Silvana Zioni, o fenômeno notado na região é tendência mundial. “Está havendo transição de mobilidade, algo que já é presente na Europa. Ao constatarem as dificuldades que o sistema viário oferece para todos os seus usuários, muitos jovens acabam optando por outros modais, que lhes proporcionem qualidade de vida melhor, tais como a bicicleta, que é algo que tem cada vez mais ganhado espaço dentro do nosso sistema.”

 

Ainda segundo a especialista, outro fator que tem sido fundamental para tal mudança é a filosofia dos jovens. “Atualmente notamos que eles saem cada vez mais tarde de suas casas. Eles colocam na frente outros objetivos de vida, antes do carro, que hoje não tem toda aquela simbologia de antes.”

 

Na avaliação do professor de Engenharia Civil da FEI (Fundação Educacional Inaciana) especializado em Mobilidade Urbana, Creso Peixoto, o novo cenário deve interferir positivamente nas políticas da Mobilidade Urbana. “Com os jovens adotando o transporte público como modal prioritário, os governantes tendem a dar uma atenção maior para nosso sistema, tendo em vista que ele precisa estar eficaz na ótica do usuário.”

 

Já para o professor Luiz Vicente de Mello Filho, coordenador do curso de Engenharia do Mackenzie Campinas, o novo cenário adotado por jovens brasileiros deve também mudar o sistema de montadoras. “Elas já estão sendo obrigadas a pensar na forma de atrair novamente os jovens a comprar carro. Isso tende a se acentuar ainda mais nos próximos anos”, pontua.

 

 

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